Coluna de Alípio Ribeiro Parauapebas – 29 ANOS!

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Jovenzinha ainda! Mas, já, repleta de filhos, de netos, de beija-flores em busca de seu doce inesquecível: saborosamente chamada por aqueles que a adoram, de Pebinha de Açúcar!

Quando era pequena, levantava poeira espessa e de cor laranja, querendo espantar aqueles que, por seus caminhos furados como queijo, insistiam num ir e vir frenético. O frenesi se destacava nas carnes sujas de minério expostas nos açougues da rua do Comércio e da rua 14! Os consumidores pareciam gostar do tempero atípico do pó de ferro que se instalava em todo lugar, fosse no Comercial Jr, no Super Box 32, no armazém Mendes, no Alvorada, na Pioneira ou na Opção. As botas e sapatos multicoloridos de amarelo e vermelho dançavam ao som do brega, lambada e reggae, orquestradas pelo Castro, Genival e companhia nas pistas de dança do Flycar, Pitdog, Nonatos drinks, Clube do Morro, Flávio e rua do Meio.

Motel alipio www.chocopeba.com.br. pbaO rio Parauapebas deixava transparecer as pedras, peixes, cobras e jacarés que nele se deleitavam. O Sebosinho era o parque de diversão das crianças e o local de trabalho das mães que lavavam as roupas em suas águas limpas e quentes. Havia alegria nos olhos daqueles que por ali se entregavam. Era tudo tão saboroso!

“TRAGA A VASILHA” era a senha preferida da criançada. 10 bolas de sorvete por um real!! O som inconfundível do caminhão de gás era quase incompreensível: “olha a tropigás”! O campinho de futebol atrás do Pitdog, na esquina da rua 10, entre as ruas G e F era o point dos domingos ensolarados! Capacete? Cinto de segurança? Só na área restrita da Vale! Os homens, em minúsculos calções, desfilavam grossas pernas ao lado das mulheres com minissaias e blusas apertadas e sem sutiãs. Não havia assédio, nem bullying. Tudo era brincadeira. Não havia medo de perambular à noite pelas ruas! Nem quando os coiotes tocavam o terror na cidade! Aliás, o grande medo era o de encontrar a loira de branco que assombrava a estrada Raimundo Mascarenhas que leva para a Serra dos Carajás. Por anos desci e subi a serra de madrugada na ânsia de encontrar a tão temida loira. Nunca a vi…

Os bairros? Nem o Liberdade existia. Era a fazenda do Serraria. Depois do Rio Verde existiam o Cedere I, II e III. Como não cantar a música de Roberto Carlos? “Eu me lembro com saudade o tempo que passou, {…} jovens tardes de domingo quantas alegrias, velhos tempos, belos dias…”

Tudo se transformou. Os aluguéis despencaram. Casas que eram alugadas por 4 mil reais não encontram inquilinos nem por 500 reais. As placas de “alugam-se” e “”vende-se” dão um tom mórbido à outrora empoeirada garotinha. Foi o preço do crescimento. Não houve desvalorização! Houve uma adequação de mercado especulativo que dominava a cidade. Em 29 anos a população aumentou 10 vezes. O desemprego e a chegada de aventureiros e pessoas com más intenções trouxeram a criminalidade e o medo.

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Mortes violentas, assassinatos, corrupção, prisão de políticos, empresários, mortes por erros médicos ganharam o noticiário nacional e até internacional! Nosso Pebinha não apareceu bem na foto. As notícias ruins encobriram as boas. Os recordes nas exportações, os prêmios conquistados pelos avanços na educação, cultura e esporte ficaram esquecidos. Os méritos de nossos filhos não foram divulgados como mereciam!

A VALE recebeu empresários, príncipes, presidentes, grandes e famosos atores em Carajás, mas ocultou-lhes a verdadeira face da cidade. O contraste tão ácido entre a serra e a planície perdeu o sentido. Não é mais preciso subir a serra, pois a serra, agora, tem que descer se quiser se divertir. Um paradoxo, já que a serra é que mantém praticamente tudo, ainda, no doce Pebinha.

TREM DA VALE

No entanto, o doce permanece. Os pioneiros aqui continuam, crentes num futuro duvidoso, mas fiéis às suas origens. Os filhos que ganharam asas e para longe voaram em busca de formação, estão de volta. O mel que os alimentou continua jorrando, apesar das condições insalubres em que é produzido. Voltaram como advogados, médicos, engenheiros, professores, policiais, técnicos, como cidadãos e empreendedores, como guerreiros batalhadores, como abelhas vorazes na produção e proteção do doce néctar!

A voz peculiar de Vamberto fez vibrar os corações dos apaixonados pela garota: “Cidade Menina, quando aqui cheguei, você era pequenina”. (Mas continua sendo nossa menina, né Vamberto?). Citar nomes é sempre preocupante, pois sempre omitimos tanta gente! Mas citarei alguns que já ouvi cantar e que são feras na interpretação: Angélica Nunes, Léo Bruno, Rogério Reis, Ivan Cardoso, Felipe de Judá, Jairo Leno, Sandra e tantos outros! As noites não seriam as mesmas sem eles cantando nos bares e restaurantes.

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A menina se agigantou. Os colibris já não pousam nos nossos quintais, as ararinhas se escondem no mais profundo da mata. Infelizmente, muitos que para aqui vieram não têm noção que estamos no meo da floresta amazônica, com suas belezas animais e vegetais, com seus habitantes aborígenes, suas riquezas e mistérios.

A sensação da riqueza eterna está acabando como o minério. É mais fácil sentar na calçada e esperar pelo o que há de vir. O trem parte cheio de riquezas e volta repleto de esperançosas e abatidas almas. Até quando, menina gigante, você suportará tudo isto?

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Os radares registram a velocidade dos veículos. Os enormes painéis eletrônicos propagam a voracidade do comércio. As residências dão lugar aos prédios de vários andares. Não é mais preciso trazer a vasilha. O sorveteiro se foi. O altofalante da Tropigás foi trocado pela som do celular! Não há mais o pó laranjado para colorir os calçados, a dança ficou desritmada.

Eu ainda vou ao mercado e dou “bom dia” para a vendedora. Ela sorri. Mas é só por educação! Mal o sorriso se desfaz e ela grita: “O próximo!”

O próximo aniversário será de 30 anos! Não perca o doce, menina travessa! Não seja moleca e nem seja sapeca! Pebinha de Açúcar…

 

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