Coluna de Kleysykennyson Carneiro A última vez

Pequena descrição do colunista: Kleysykennyson Carneiro, escritor, poeta, jornalista, entusiasta da esquerda, pai da Maria e do Raul. Já quis ser astronauta, entregador de gás e cigano, que nem todo mundo.

Mas ele se ajoelhou aos seus pés e chorou feito criança para que ele não fosse embora. Pelo menos não àquela noite. Implorou para que o calor dos seus corpos continuassem ainda os mesmos, mesmo depois do que dissera. Foi um absoluto erro. Bem como era errado agora agarrar-se aos seus pés, feito pulga, e ouvir o choro dele baixinho sabendo que devia voltar para a esposa e para os filhos, mesmo querendo ficar. Mas quando ele mandou o amado “tomar naquele lugar” e sumir, não havia falado sério. Foi só da boca pra fora; um daqueles deslizes humanos… Fora a fagulha da revolução, a faísca para o fim… Ele que preparara uma noite de sonhos. Flores, versos, champanhe… E agora o outro queria ir. E agora ele iria assim que pudesse. E agora o recepcionista do hotel que ouvira os gritos e os sons de coisas quebradas batia a porta querendo saber se todos estavam bem. Não, eles não estavam bem. Era já amor de tanto tempo… Era já caso de meia década. Segredo de motéis, hotéis, pousadas, diferentes taxis e sempre a promessa de que haveria um dia depois daquele, e do outro e do outro. Mas agora ele queria o fim e não podia. Mesmo que estivesse com o coração em estilhaços… Não devia ir. Mas também, para que pressionar? Não sabia ele que aquilo jamais mudaria? Não sabia ele que arriscar não é pra tantos? Ele sabia, só não queria enxergar. Acendera aquele pavio por nada. Por pura vaidade. Por um ciúme completamente sem nexo. O futuro era aquilo ali mesmo que havia já há tantos anos. O futuro era e sempre seria aquele amor enclausurado. Aquela dor de se esconder de tudo e de todos. Dor de não poder das as mãos. Dor de preconceito. Os filhos que jamais aceitariam. A mulher que destruiria a vida dele. A sociedade que era do jeito que sabiam que era. Mas estariam juntos, ele falou. A vida não é só isso, o outro rebateu. E aí vieram os palavrões. As coisas quebradas. Os socos, os pontapés… A ruína. O amor que o fez ajoelhar e pedir perdão pelo nariz quebrado, pelos braços arranhados… Já não saberia dizer de quem era o sangue no quarto se seu, ou se dele. Mas ele falou com toda a calma para que ele se levantasse. E ele levantou. Largou as pernas do homem e se recompôs. Sabia que era o fim e chorar foi só o que sobrou. Olhou nos olhos dele e se viu destruído. Ele falou que teria que ir pra sempre. Beijaram-se. Saliva, suor e sangue. Um abraço daqueles de até nunca mais. A porta se abriu. Deixou o seu cartão com o recepcionista e falou que pagaria todo o prejuízo. O que ficou fechou a porta. Ajoelhou-se no chão. Não rezou. Chorou só e só chorou. Depois, com a lâmina do barbeador, cortou os pulsos. E sentiu paz ali sozinho. Morreu por amor. Viveu por desamor.

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