Ah, se eu fosse homem…

Pequena descrição do colunista: Kleysykennyson Carneiro, escritor, poeta, jornalista, entusiasta da esquerda, pai da Maria e do Raul. Já quis ser astronauta, entregador de gás e cigano, que nem todo mundo.

Já pensou andar na rua sem medo? Já pensou dançar no carnaval e não se importar com aquela mão por baixo da saia?
Ah, se eu fosse homem não passaria por nada disso!
Minha mãe me deixaria em paz com essa história de parecer uma boa mocinha e lavar toda a louça do jantar. Eu seria como o meu irmão, que refeição após refeição se senta no sofá pra ver TV com o papai; ou como o papai que sai pra trabalhar de manhã e só volta no jantar e é dono do seu dinheiro, da sua vontade e da mamãe…
Já pensou andar no mundo, dormir com quem quiser, quantas vezes quiser e não ser chamada de puta?
Já pensou viver em um mundo bom e justo? Já pensou nunca mais ser subestimada?
Ah, se eu fosse homem… Já pensou?
Não ter um dia apenas, mas as quatro estações por completo.
Se eu fosse homem, não fecharia as pernas pra agradar, não tomaria cuidado com que palavras usar… Falaria o que viesse na cabeça! Sem pensar duas vezes. Já pensou ser perdoada pelo mundo por cometer erros, às vezes?
Eu seria o meu próprio universo!
Não tinha que dar peito pra criança. Não tinha que ficar esperando pelo pai aparecer pra cuidar do menino no fim de semana dele.
Não tinha que ouvir julgamento de ninguém.
Ah, se eu fosse homem…
Nem me importaria com esse feminismo idiota que não resolve nada por ninguém. Seria militante da causa machista e lutaria por um mundo igual a esse que nós já temos. Eu lutaria para que tudo continuasse exatamente como é hoje; afinal, eu seria homem e pra mim tanto faria que direitos fossem subtraídos do sexo oposto.
Não usaria esses saltos desgraçados! Nem essas roupas coladas! Não derramaria sangue por dias seguidos! Eu seria livre.
Ser homem é bom. É ser livre. É ser leve.
Sem dores de parto! Sem essa de ficar em casa esperando.
Sem louça pra lavar, chão pra varrer, roupa pra passar!
Como eu queria ser dona de mim, dona de tudo… dos meus desejos e das minhas horas…
Mas eu sou só escrava da minha condição; o mundo é o mundo e não há feminismo que resgate isso.
Ainda tenho tanta casa pra varrer, tanta criança pra dar de mamar… Esse meu sonho de se libertar ainda vai dar filme…
Ah, se eu fosse homem.

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