Nos últimos desdobramentos do cenário político-jurídico brasileiro, a figura proeminente do pastor Silas Malafaia voltou a ocupar o centro do debate. Alvo de investigações que apuram, entre outros pontos, a incitação a atos antidemocráticos, Malafaia e seus aliados rapidamente acionaram uma conhecida estratégia de defesa: a narrativa de perseguição religiosa. Essa tática, embora retoricamente poderosa para sua base de seguidores, representa uma perigosa distorção dos fatos e um desserviço tanto para a democracia quanto para a própria comunidade evangélica.
O ponto central da questão é a deliberada confusão entre a pessoa física e a fé que ele representa. Quando a Justiça Federal ou o Supremo Tribunal Federal mira as ações e declarações de Silas Malafaia, não está colocando o cristianismo no banco dos réus. Está investigando um cidadão brasileiro que, como qualquer outro, está sujeito às leis da República. Alegar que uma investigação sobre condutas individuais é um ataque a milhões de fiéis é um sofisma que busca criar uma imunidade simbólica, colocando o líder religioso acima da lei e da responsabilização cívica.
A atuação pública de Silas Malafaia há muito transcende o pastoreio tradicional. Utilizando suas plataformas midiáticas e influência sobre uma vasta audiência, ele se consolidou como um ator político de primeira grandeza, cuja retórica inflamada e engajamento em pautas de poder o afastam do papel de guia espiritual para aproximá-lo do de um ativista radical. Suas falas não são apenas sermões; são discursos políticos com consequências tangíveis, capazes de mobilizar massas e, como apontam as investigações, potencialmente atentar contra a estabilidade democrática. Portanto, é natural e esperado que o sistema de justiça analise o teor e o impacto de tais discursos.

O perigo dessa estratégia de defesa é duplo.
• Primeiramente, ela corrói a confiança nas instituições ao enquadrar a aplicação da lei como um ato de opressão ideológica. Em uma democracia funcional, ninguém possui salvo-conduto, seja ele político, empresário ou líder religioso.
• Em segundo lugar, ela instrumentaliza a fé de milhões de brasileiros, convertendo a religiosidade em um escudo para proteger um indivíduo de questionamentos sobre suas condutas terrenas. Ao fazer isso, banaliza o conceito real de perseguição religiosa, que é uma realidade trágica em muitas partes do mundo, e associa a imagem da comunidade evangélica a um projeto de poder que flerta com a ilegalidade.
Em última análise, a sociedade brasileira, incluindo os próprios evangélicos, precisa fazer uma distinção clara e inequívoca: a responsabilização de Silas Malafaia por seus atos e palavras é uma questão de cidadania e estado de direito, não de teologia. A verdadeira defesa do Evangelho talvez resida não em blindar seus mensageiros mais controversos, mas em zelar pela integridade de sua mensagem, que jamais deveria ser confundida com um projeto de poder terreno e seus inevitáveis confrontos com a lei.
_Nádio Batista
• Militar da Reserva, Th, Phi B, Psican.

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