Partido continua a tratar ex-presidente como principal liderança, mas ausência exige revezamento nas tarefas e objetivos partidários
Mais de uma semana após a prisão de Lula, a organização interna do PT segue agora sob uma espécie de comando compartilhado de parlamentares e lideranças. Sem o ex-presidente presente, o partido tem voltado às suas origens. Órfãos de sua maior referência no cotidiano, os principais nomes revezam-se nas tarefas partidárias e apresentam uma horizontalidade mais comum a movimentos sociais, base da formação histórica da legenda no fim dos anos 1970.
Ainda que o consenso no partido seja de priorizar a campanha em favor da liberdade de Lula, representantes do PT no Senado e Câmara ouvidos por CartaCapital têm visões distintas sobre o caminho a ser seguido daqui em diante.
Enquanto alguns apostam em adotar uma postura mais radical — o que, no momento atual, significaria reforçar o discurso e aumentar a pressão sobre o Judiciário —, outros seguem a linha conciliatória.
Essa divisão já foi sentida nas negociações no Sindicato dos Metalúrgicos, no início de abril, quando o grupo mais próximo a Lula e sua defesa participavam das negociações de entrega à Polícia Federal, enquanto outro insistia em resistir à prisão por mais tempo.
Desde a fundação do partido, em 1980, Lula sempre foi quem “bateu o martelo”: ditava não só a linha do discurso a ser adotada, como também ordens pragmáticas, e concentrava muita capacidade de conciliação entre as principais alas do partido.
A presidente nacional do partido, senadora Gleisi Hoffmann, sinalizou que pretende se reservar ao papel de porta-voz de Lula, mas não se posicionar como nova líder. Hoffmann obteve permissão para visitas na terça-feira 17 à Superintendência da PF.
Além da presidenta do PT, um grupo de senadores do campo progressista também se encontrou com o ex-presidente. Segundo os relatos de Vanessa Grazziotin, do PCdoB, e Lindbergh Farias do PT, o maior sofrimento de Lula é seu isolamento na prisão. Ele está em uma cela afastada e não tem contato com outros presos.
“Ele disse que sabe que está em uma solitária e quais são os efeitos disso. Mas ele está bem de saúde, está acompanhando tudo que está acontecendo no país, e disse que ficará lá até provar sua inocência”, disse Lindbergh.
Por ora, as decisões no partido não vão além da campanha pró-Lula. Parlamentares petistas negaram a intenção de mudar a estratégia para 2018. A mesma cúpula que visitou o presidente no Sindicato dos Metalúrgicos na véspera de sua prisão se encontra dividindo tarefas em Brasília e Curitiba.
Os deputados federais estão se revezando para que ao menos três deles estejam presentes no acampamento em Curitiba a cada dia. Eles fixaram uma agenda nacional de mobilizações, que devem culminar em um grande ato no dia 1º de maio; não há medidas de prazo mais longo no horizonte. Nesse meio-tempo, o diálogo com as outros partidos e frentes de esquerda ficou por conta do senador Eduardo Suplicy (SP).
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Luiz Marinho, ex-presidente de São Bernardo do Campo e pré-candidato ao governo estadual de São Paulo, ficou encarregado de articular a proposição de pautar a prisão após segunda instância com os ministros do Supremo Tribunal Federal.
“A agenda do PT está quase inteiramente em torno das mobilizações pela soltura de Lula”, afirmou Marinho.
Com a exceção de Hoffmann, de alguns senadores, da família e dos advogados do ex-presidente, a comunicação com o ex-presidente segue limitada e indireta. O principal membro da equipe de defesa do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, não tem disponibilidade para estar todos os dias na capital paranaense, e designou um membro de sua equipe para fazer plantão na cidade.
A maior aposta da defesa está no julgamento da Ações Diretas de Constitucionalidade (ADCs) 43 e 44 no STF, que podem mudar o entendimento sobre a prisão após segunda instância. Para isso acontecer, a ação teria de ser pautada como questão de ordem pelo ministro Celso de Mello. Não há garantias de que isso aconteça; caso o ministro não paute a matéria essa semana, o PT deve mudar de estratégia.
Por enquanto, não há plano B para consolidar uma nova liderança do partido que não Lula ou mesmo viabilizar uma nova candidatura.
*Colabou Carol Scorce
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