
O palco da COP30 em Belém se ilumina, e com ele, um holofote sobre a Amazônia. Mas em meio a essa luz, há uma sombra, um questionamento que a retórica oficial não ousa fazer. O índio, há tanto tempo idealizado como o guardião da floresta, agora empunha não apenas a lança, mas também o microfone. E a sua voz, que deveria ecoar a sabedoria ancestral, muitas vezes ressoa com a frieza do interesse.
A crônica do “bom selvagem”, inocente e desinteressado, começa a ruir. A luta pela demarcação de terras, que sempre foi vendida como uma batalha pela preservação, revela um lado menos nobre. Em muitas comunidades, a terra não é apenas a herança dos ancestrais, mas também a chave para o capital. A demarcação se transforma em um “negócio”, onde a madeira, a mineração e até o turismo se tornam moedas de troca. A floresta, de santuário, vira ativo.
Essa nova realidade nos obriga a reavaliar a nossa própria visão. Onde está o guardião puro, que vive em harmonia com a natureza? No lugar dele, vemos um negociador astuto, que sabe o valor de sua imagem e a explora em prol de benefícios materiais. A pauta ambiental, que deveria ser universal, torna-se uma barganha local. O dinheiro que chega de ONGs, de governos estrangeiros e do próprio evento, não é usado apenas para a proteção, mas também para a construção de casas de alvenaria, para a compra de carros e para o acesso a bens de consumo que o “homem branco” tanto cultiva. A cultura do “homem branco” que tanto o índio critica, é a mesma que ele, de forma hipócrita, se apodera para se beneficiar.
Essa mudança, porém, é um reflexo direto da nossa própria sociedade. O pensamento fechado não é exclusividade dos povos indígenas. Ele se manifesta em todos nós, na nossa incapacidade de enxergar o outro como um ser humano complexo, com falhas e virtudes, e não como um personagem de uma fábula.
A COP30, portanto, nos apresenta um dilema. Enquanto o mundo celebra a “cultura indígena” e o seu papel na preservação, o que acontece quando a ganância se infiltra? Quando a luta deixa de ser pela terra e passa a ser pelo lucro? O que acontece quando o índio, antes vítima, se torna, ele mesmo, um predador?
A lança, que um dia foi usada para a caça e a defesa, agora aponta para um novo inimigo: a própria floresta, que o índio, em sua nova faceta de negociador, se mostra disposto a sacrificar em nome do progresso pessoal. É uma verdade desconfortável, mas necessária para que a discussão sobre a Amazônia seja completa, honesta e, acima de tudo, eficaz.
Afinal, a busca por uma solução para a Amazônia não pode se basear em mitos, mas sim na dura realidade. E essa realidade nos mostra que o interesse, assim como a ambição, não é exclusividade de ninguém. O que você acha que precisa ser feito para que o pensamento do índio se abra para uma realidade de desenvolvimento e preservação, onde os interesses individuais não se sobreponham aos da coletividade?
_Nádio Batista
• É Militar da Reserva, Teólogo, Phi B, Psican e Pastor Luterano na Comunidade Cristã Mosaico

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